Ele fundou a empresa em seu apartamento, em 1999, e
agora deve embolsar US$ 15 bilhões com a abertura de capital
Aos 50 anos, Jack Ma é o fundador e maior
investidor individual do Alibaba, com fatia de 9%. FOTO: Carlos
Barria/Reuters
NOVA YORK – Quando o
Alibaba Group abrir seu capital ainda este mês numa oferta pública
inicial que pode levar o valor da empresa a cerca de
US$ 160 bilhões, os investidores saberão muito bem quem está no controle da
empresa. Jack Ma, 50 anos, pouco mais de 1,5 metro de altura, é o rosto público
do grupo. É seu principal negociador. É o principal
estrategista. E também o maior investidor individual, dono de participação de
9%.
O Alibaba, empresa
fundada no apartamento de Ma em 1999, é hoje um gigante datecnologia com
valor superior ao de nomes conhecidos da indústria americana, como eBay e
Hewlett-Packard. Sob a liderança dele, o Alibaba se tornou a força dominante do
comércio eletrônico chinês e um símbolo da acelerada ascensão econômica do
país. A empresa tem 250 milhões de compradores ativos na China, e seus pedidos
correspondem a 60% de todos os pacotes entregues no país.
Esse sucesso ajudou a
tornar Jack Ma uma espécie de celebridade entre os diretores executivos, um
empresário que se sente à vontade na companhia dos gigantes dos negócios em
Davos, comandando a elite política chinesa em visitas guiadas à sua empresa e
promovendo a “Sabedoria de Jack Ma” em livros e DVDs.
A oferta
pública inicial pode dar a ele (que já é um dos homens mais ricos da China)
uma fortuna superior a US$ 15 bilhões. Ele já prometeu doar boa parte dessa
riqueza, tornando-se quase instantaneamente um dos maiores filantropos do
mundo. (Ma e o Alibaba não concederam entrevista para essa matéria, citando
regras que limitam pronunciamentos públicos antes de ofertas públicas
iniciais.)
Ma se acostumou a
fazer tudo ao seu estilo. Ele tem o costume de fechar negócios
com amigos do seu círculo mais próximo e compra empresas de indústrias que
parecem não ter relação entre si. Às vezes, é difícil determinar se um
investimento é pessoal ou profissional, porque os limites entre o portfólio de
Ma e do Alibaba Group muitas vezes parecem tênues.
Essas atividades nem
sempre são transparentes, algo que pode acender o alerta para os novos
acionistas de uma empresa de capital aberto. Como muitas empresas chinesas, o
Alibaba também funciona por trás de um véu de complicadas estruturas de
propriedade, que podem limitar as objeções de acionistas discordantes.
Infância
Rebelde e precoce, Ma
cresceu na cidade de Hangzhou, leste da China, o segundo dos três filhos de um
casal de artistas de pingtan, tradicional técnica de narrativa musical. Os
vizinhos dizem que o menino era problemático e, muitas vezes, rebelde, mas
talvez ele fosse apenas precoce. Aos 10 anos, Ma Yun (seu nome chinês) começou
a gostar de inglês e pedalava sua bicicleta até o hotel Hangzhou
para praticar com turistas estrangeiros, experiência que ele diz ter aberto sua
mente para um mundo mais amplo.
Suas dificuldades com
a matemática quase o impediram de frequentar a faculdade. Mas, depois de ser
aprovado no exame nacional de admissão universitária na terceira tentativa, Ma
entrou numa universidade de professores locais, onde obteve resultados
impressionantes.
Com a economia chinesa
começando a decolar, Ma enxergou oportunidades no empreendedorismo. Os amigos
dizem que, no tempo livre, ele participou da fundação de uma agência de
tradução, vendeu remédios e tentou a sorte no mercado de ações.
“Se eu não ficar
milionário antes dos 35”, brincou Ma com o amigo Qi Xiaoning, “mate-me, por
favor!” Ele visitou os EUA pela primeira vez em 1995. Ma tinha feito amizade
com Bill Aho, um americano que ensinava inglês em Hangzhou, e hospedou-se na
casa dos parentes de Aho em Seattle. Lá, ele foi apresentado à internet pelo
genro de Aho, Stuart Trusty, que administrava a VBN, um dos primeiros
provedores de acesso à internet dos EUA.
Ma voltou para casa e
fundou uma das primeiras empresas chinesas da web, a China Pages,
um diretório online de empresas locais em busca de clientes no exterior.
Ex-colegas dizem que Ma trabalhava incansavelmente, batendo em portas, tirando
fotos, reunindo informações e traduzindo-as para o inglês.
A China Pages enfrentou
dificuldades no início, mas Ma manteve o otimismo. Durante uma viagem a Seattle
em 1996 para conhecer os sócios da VBN, ele parecia confiante num futuro de
riquezas, diz Aho, que viajou com ele. Em 1996, a China Pages foi pressionada a
formar uma joint venture com a Hangzhou Telecom. O acordo definiu
que o comando ficaria com o governo.
Fundação
Quando Ma fundou o
Alibaba em 21 de fevereiro de 1999, ele pediu a 17 amigos que se reunissem em
seu apartamento no segundo andar do Lakeside Gardens, em Hangzhou. No
quartel-general improvisado, ele fez uma longa palestra a respeito de suas
ambições e do quanto a China precisava de uma grande startup.
Posteriormente, Ma revelou que escolheu o nome porque “todos conhecem a
história de Ali Babá”, disse. “Trata-se de um jovem disposto a ajudar os
outros.”
A empresa foi erguida
com base numa premissa semelhante: ajudar empresas a encontrar clientes no
exterior. Se um varejista americano estivesse procurando por um fornecedor de
pantufas de algodão na China, talvez recorresse ao alibaba.com. Se um produtor chinês de botões quisesse exportar para a Coreia do
Sul, poderia publicar um anúncio no site. Para ele, o Alibaba seria como uma
sala de reuniões virtual para pequenas e médias empresas envolvidas no comércio
global.
No começo, Shirley
Lin, banqueira do Goldman Sachs, visitou o apartamento de Ma. “Fui ao
apartamento deles, onde todos trabalhavam sem parar”, diz Shirley, que hoje
leciona na Universidade Chinesa de Hong Kong. “O cheiro do lugar era horrível,
havia pilhas de embalagens velhas de macarrão instantâneo. A dedicação dele a
fazer o modelo dar certo na China era total. Fiquei comovida com o que vi.”
Um mês mais tarde, o
Goldman esteve à frente de um investimento de US$ 5 milhões na empresa. Pouco
depois, Masayoshi Son, presidente do SoftBank japonês e um dos homens mais
ricos do mundo, concordou em liderar outra rodada de investimentos na casa dos
US$ 20 milhões. Com os investidores internacionais, Ma compartilhou uma grande
fatia da empresacom seus 17 cofundadores: em sua maioria amigos e
ex-estudantes, e contando entre eles a mulher de Ma, Cathy.
Mas o poder ainda
continuava concentrado em grande parte nas mãos de Ma. Ele e seu principal
vice, Tsai, detinham duas das quatro cadeiras no conselho de administração da
empresa. Ma controlava também as companhias operadas pelo Alibaba na China.
Quando o Alibaba
começava a ganhar dinheiro, em 2002, Ma propôs criar um site voltado para o
consumidor para concorrer com o eBay. Com o financiamento do SoftBank, o
Alibaba montou uma força tarefa secreta para desenvolver o site do consumidor,
que chamou Taobao, ou “em busca do tesouro”.
A partir de então,
trimestre após trimestre, ano após ano, o Alibaba registra um crescimento
fantástico. E a companhia, que em 2004 apresentou um faturamento de cerca de
US$ 50 milhões, este ano poderá chegar a cerca de US$ 10 bilhões.
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